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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

do corpo feminino cerceado ( mata atlântica/imigrantes)

da série do corpo feminino cerceado, de casa sonhando com a mata atlântica, descendo a serra do mar e indo de encontro com meus passarinhos. bordado #2

do corpo feminino cerceado ( do gosto ou a natureza da língua)



Postei fora de ordem, mas desta série ' o corpo feminino cerceado' o bordado #3.detalhe bordado feito a mão

Delírio


 Delírio nasce de um rabisco antigo e que de certa maneira vem de um incomodo a respeito das aparências que queremos e que não podemos. Muito do que se quer, tem mais a ver com um ideal das mídias e a gente pode até pretender muitas personas, mas dentro desse mundo real, essa metamorfose que alguns artistas criam na expressão e que nos seduz, não no cotidiano, gera frustrações por expectativas irreais e milionárias. A indústria da beleza é um campo de lutas sobre nossos corpos. Tudo muito óbvio, tudo muito capaz de nos adoecer. 

do corpo feminino cerceado ( banho de cachoeira)

Banho de cachoeira

Da tetralogia que começa com o bordado Socorro, um bordado de cachoeira para levar e lavar as coisas ruins que esse país anda vendo e ouvindo. 
Da série do corpo feminino cerceado bordado #4

sexta-feira, 30 de março de 2018

o ano tem 525.600 minutos

E a gente vai entendo cedo que lugar ocupar.
1985, a notícia que corria na rua onde morava é que havia uma moça morta, movida mais por curiosidade do que morbidez, fui até lá ver. Fui muitas vezes enquanto não ensacavam o cadáver. Era um assobradado de fundos, haviam desistido de terminá-lo, abandonado, paredes escuras. No que supostamente seria o quarto dos fundos, uma janela para o quinta lá embaixo. O desenho da casa se parecia com a minha. A nossa sala estava no mesmo nível da rua, havia um quintal embaixo da casa. O quarto com horizonte, hoje, passados quase 35 anos já não posso me lembrar. Talvez ali não havia um horizonte a ser lembrado...nem para nós, nem para ela.
Ela estava nua sobre uma grama alta, com as pernas de lado, parecia dormir, essa imagem ficou por muito tempo no meu inconsciente, foi voltando devagar. Hoje é uma memória bem triste, infelizmente não sabemos nada sobre aquela moça com belo corpo que repousava sobre o mato alto. Eu já a imaginei muitas vezes caminhando pela rua, não consigo pensar no agressor, só penso na liberdade que ela tinha. Tinha?
Segundo o anuário Brasileiro de Segurança Pública, apenas 30% ou 35% dos casos de estupro são notificados , estima-se que no Brasil aconteça um estupro por minuto.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Vamos falar sobre violência doméstica

 Eu nasci em uma ambiente favorável, acho que até amoroso, mas por volta dos meus 4 anos de idade, meu pai se transformou. Nossa vida doméstica virou um pequeno inferno eu diria.
 Meu pai tinha 22 anos quando eu nasci, segundo a lenda, ele estava noivo de outra mulher e seu pai, o dissuadiu a terminar a relação e se casar com a minha mãe. Ele aceitou a ideia, mas isso teve um preço e um chantagem.
 Meu pai vinha de uma classe social um pouco melhor, sua família tinha imóveis e viviam de aluguéis e um pequeno comércio.
 Já ela, era de origem humilde, e chegou a trabalhar junto com seus familiares em plantações de café no interior de Minas e São Paulo, mas também trabalhou como copeira, faxineira, enfim, subemprego de imigrante italiano. Sobre a sua cultura do interior, eu adoro relembrar, seja por meio do paladar, vide que minha família materna era de Minas Gerais, e minha mãe, como a maioria das mães, era a responsável por nosso desenvolvimento. Ela também me ensinou um pouco sobre música brasileira antiga, cantava as cantoras do rádio, as marchas de carnaval. Minha mãe já tinha um filho de um relacionamento bem anterior, meus pais tinham 10 anos de diferença e minha mãe era a mais velha na relação. Meu irmão por parte de mãe, não conheceu seu pai. Ele foi criado por todos os tios e por meu avô materno. Meu pai, sugere então, que minha mãe faça uma escolha, ou ele, ou meu irmão. Isso refletiu em toda a nossa vida, porque ela, que já havia tido um filho, aos 19 anos sem pai, poderia novamente viver essa "maldição da mãe solteira", por isso, meu irmão foi criado por tios e tias. Criamos um monstro, mas eu tinha um "pai".
 Meu pai se transformou em um alcoólatra extremamente violento, não sei quantas vezes fomos a delegacias para prestar queixas contra ele, ou quantas internações por conta do vício. Em uma visita dessas de domingo, fui vê-lo no famoso manicômio Juqueri em Franco da Rocha, no começo dos anos 80.
Há uma cena muito forte na minha memória, eu tinha por volta de 5 anos, e ele chegou em casa, com muita raiva, eu e minha irmã percebemos que ele iria bater na nossa mãe, então, ela sentada sobre a cama, nós duas a abraçamos, fazendo um ninho, tentando protegê-la,  conseguimos dessa vez. Só dessa vez.
 Seus problemas com o álcool e talvez outras drogas eram muito intensos, eu nunca entendi como essa dependência podia desencadear tanta raiva e violência em uma só pessoa.
 As relações entre meu irmão e meu pai, também só pioravam, chegaram a trocar socos e tiros, não éramos poupadas das cenas. Um dia, fugimos de casa, deixamos a maioria de nossas coisas para trás, meus brinquedos, me lembro deles até hoje, não consegui levar junto comigo. Nos mudamos para a casa da família do meu irmão, as coisas não eram fáceis, e meu irmão, que não era filho do meu pai, tinha a mesma personalidade violenta e alcoólica. Da mesma forma em que ele via o padrasto destilar sua raiva em sua mãe, ele não hesitou em fazer o mesmo com sua esposa. Vivi entre eles até os meus 25 anos, vi violência doméstica até os meus 25 anos. Ela acabou para mim aí...mas meus sobrinhos e minha cunhada, levaram mais tempo para ter paz. Vivendo ali, por anos, imaginei que alguém podia entrar na nossa casa e acabar com nossas vidas, porque meu irmão tinha ou tem uma índole descontrolada dentro de si, capaz de muitas inimizades, nunca soube se suas histórias eram ou não verdadeiras, mas eu não posso com elas.
 Minha mãe morreu quando eu tinha 19 anos, e por seis anos, ele tentou cercear minha liberdade, coisa que a minha mãe também fez, só cada um com suas motivações. A dela, por medo de que eu tivesse a mesma vida difícil que ela teve. E ele, por ser achar propietário pós-mortem.
Não me digam que o feminismo é desnecessário.